Comecei a ouvir o podcast da Michelle Obama. Apesar de ter uma forma política de falar, não é um podcast político; tem vários temas e convidados.
A última convidada era uma amiga ginecologista e falavam do momento em que as mães têm a conversa sobre o período com as filhas. A Michelle dizia que a mãe lhe tinha dado uma caixa para abrir no momento certo.
Ouvir isto fez-me lembrar uma situação que ocorreu cá em casa.
Convidei a minha irmã, marido e sobrinhos para virem cá jantar.
A minha sobrinha sujou a cadeira de sangue. Coisas que acontecem que eu já há muito tempo deixei de dar importância. Limpei logo a cadeira com uma toalhita húmida e ficou como nova. Depois fui ajudar a minha sobrinha na casa de banho.
Oiço a minha irmã dizer o seguinte:
"Ela tem tanto fluxo".
Naquele momento fui transportada no tempo, onde ouvi a mesma coisa da minha mãe. Bem, parece que há coisas que nunca mudam e que ter muito fluxo "é algo anormal". Pela entoação das palavras, aquilo parecia que era um bicho de sete cabeças e que não havia solução.
Também eu passei por isto e também tive os meus descuidos; os meus primeiros dias com o período eram dias de terror para mim.
O que me chocou no meio daquilo tudo foi saber que "não havia nada a fazer".
Claro que há muito mais a fazer. Pode-se conversar, pode-se apresentar outras formas protecção ser sem só pensos. E nisto percebi, que a conversa não existiu e que a existir foi exactamente a mesma conversa de anos atrás.
As coisas mudam e as pessoas também têm que evoluir. O mundo não é uma coisa estanque, portanto o período também não é.
Sigo algumas influencers portuguesas no instagram. Sigo-as porque gosto do conteúdo que produzem. Olho sempre para este conteúdo com espírito crítico e muuuuuuuuuiiiiiiiito filtro. Por isto, nunca comento muito o que elas fazem porque sei que é o trabalho delas.
Mas, ultimamente, sinto-me um bocadinho revoltada com elas. Quando vejo que estão de férias, ignoro logo e passo para o próximo story ou post. Reparo que estão a fazer publicidade a hotéis e têm férias de graça.
Tenho andado à procura de sítios para ir de férias e por curiosidade fui ver alguns que são partilhados pelas influencers. Não existiu um que ficasse a menos de 200 euros à noite. Em 3 dias, gastaria o equivalente a um ordenado mínimo isto sem contar com refeições e transporte.
Percebo que seja o trabalho delas e que não recusem estadias de graça. Mas pergunto-me quantos dos seguidores destas influencers irão hospedar-se nestes hotéis porque foi partilhado por elas e quantos terão capacidade para pagar isto. Compensará mesmo aos hotéis oferecerem estadias vendo os preços que estão a praticar?
Fui ver também aqueles hotéis em que já passei férias e reparei que subiram os preços no mínimo em 50%.
Dizem eles que agora têm mais custos com a limpeza e desinfecção. Entendo se estiver relacionado com protecção individual dos empregados uma vez que antes não utilizavam este tipo de equipamentos. Nalguns casos, chamam a isto, "taxa de limpeza" e cobram ao cliente. O que na minha perspectiva é só estúpido. Higiene e limpeza é algo básico e não deveria ser cobrado ao cliente.
Posto isto, acho que este vai ser o ano em que não vou sair de casa.
Esta percepção é muito estranha. Sentir que cheguei a este ponto e o quanto está muito claro na minha cabeça é muito estranho.
Se por um lado, sentia-me culpada e com peso na consciência por não ter a mesma relação que as outras pessoas têm, por outro, só eu sei o que se foi passando ao longo dos anos. Sempre fui muito julgada por esta "falta de relação" e até questionada. O que algumas pessaos não compreendem é que nem todos vivemos as relações da mesma forma. Mas nunca me justifiquei porque não queria estar a falar de coisas que não mereciam atenção.
Não posso apontar nenhuma situação em concreto. Foram várias ao longo dos anos e nem o laço familiar amenizou a situação.
Podia ter passado de amor a ódio que é o mais normal. Mas o que sinto é indiferença, pura e total indiferença. O que até considero bastante maturo já que o ódio é um sentimento que só faz mal.
A partir daqui é fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que haja uma cordialidade entre nós.
Estava a ouvir uma pessoa a dizer que antes do 25 de Abril tinha trabalhado para o vice-governador do Banco de Portugal. Que aquilo é que era vida, que pagava bem e que lhe tinha dado boas prendas de casamento. No fundo, tinha sido bem tratada.
Depois veio o 25 de Abril e tudo se esfumou. Acabou-se o emprego, acabaram-se as boas condições. Acabou-se tudo.
Sempre que ouvi esta história, ficava incrédula. Então, vivia-se um regime facista em que não havia liberdade e esta pessoa fala como se o 25 de Abril lhe estragasse a vida. Sempre achei aquilo uma grande estupidez.
Até à ultima vez que ouvi esta história em que fiquei cheia de pena. Passaram-se 40 anos e ainda se agarra a esta memória. Parece que os 40 anos que se passaram a seguir, não lhe deram memórias suficientes e boas para que visse que lhe calhar a "boa vida" antes do 25 de Abril fosse à custa da liberdade.